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Galeria Luciana Brito

Rochelle Costi: Reforma - 1 setembro à 13 outubro

LB News
  • © Filipe Berndt
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Rochelle Costi – “Reforma”

 

Infiltrações clandestinas

"Imagens de construções informais e improvisadas, algumas abandonadas, ou à beira da desagregação, se infiltram na ordem solar e cristalina da casa moderna projetada por Rino Levi. Mas sem preservar a separação aurática da fotografia de arte, emoldurada e distante, e sim como elemento comum da própria arquitetura da casa, na forma de cortina, parasitando a lareira da sala de estar, camuflada no jardim, ou ganhando outros suportes variados. Não se trata de uma oposição dual entre racionalismo erudito e improvisação popular. As imagens que aqui aparecem não são exatamente antagônicas em relação à casa moderna. São a sua sombra, sua dobra, ou seu pesadelo. Daí a ambiguidade entre escalas, medidas e desmedidas, ou entre realidade e modelo, tão bem explorada na obra de Rochelle Costi. As maquetes, presentes no video e em uma das fotos, não são ensaios de projetos arquitetônicos futuros, e sim mergulhos no universo da intimidade, da cultura popular, dos brinquedos de criança e dos excessos barrocos das coleções de objetos, da casa e do sonho da casa, ritualizado em ex-voto de procissão.

Uma piscina tomada por musgos, um armarinho ordinário que toma o lugar da lareira, no elegante tótem-monumento central da casa, o pijama pink de Juscelino Kubitschek engaiolado em uma vitrine no seu quarto do Catetinho, palácio de madeira construído para o presidente quando em visita à capital em construção, e ícone da imagem de modenidade do Brasil nos “anos dourados”. O olhar da artista é ao mesmo tempo afetivo e irônico. Como se vive em uma casa moderna? De que maneira se chocam a normatividade do desenho límpido, redutivo e essencial, e os transbordamentos algo irracionais da vida cotidiana, das necessidades de flexibilidade e mudança das pessoas, que acabam levando os moradores muitas vezes a realizar reformas em suas casas? Sem buscar respostas para uma adequação ideal entre projeto e uso, Rochelle Costi nos leva a imaginar linhas de escape, perversões, medidas esquivas. Entre o projeto e o ex-voto, passamos também a desejar, nós, outras tantas casas."

 

Guilherme Wisnik

São Paulo, Agosto de 2018

 

 

Intitulada “Reforma”, a individual de Rochelle Costi (n. 1961, Caxias do Sul) ocupa a sala Rino Levi da Luciana Brito Galeria, cuja arquitetura modernista é tomada como suporte para obras em grande parte inéditas. As peças retratam espaços criados por lógicas distintas à do processo moderno, estabelecendo um diálogo entre o racionalismo e o improviso.

O olhar atento, generoso e bem-humorado sobre situações e espaços que escapam ao rigor modernista do planejamento e da ordem, abraçando – por desejo ou necessidade – o inesperado e o improviso como ferramentas construtivas é característica marcante na produção de Rochelle Costi ao longo das últimas décadas. Se sua obra surge inicialmente a partir de pequenos objetos sem valor monetário que coleciona desde a infância, tomando principalmente a forma de instalações, rapidamente o afã colecionista da artista se expande para além da fisicalidade do mundo. Ela passa, então, a reunir imagens, muitas das quais relacionadas a arquiteturas e às cidades, mas também a espaços domésticos e a outros elementos da intimidade, bem como ao modo de vida de diferentes populações e extratos sociais.

Em “Reforma”, vê-se uma síntese do trabalho que Rochelle vem realizando nas últimas décadas, sob o ponto de vista da arquitetura. Na individual, a artista se apropria da residência modernista Castor Delgado Perez literalmente como suporte para imagens de espaços que não operam pela mesma lógica que o organiza e foram motivados por outros ideais. Com fotografias impressas em canvas a ocupar paredes inteiras, impressões em tecido e sobre papel de diversas dimensões, a artista apresenta cenas que, apesar de clandestinas, parecem se integrar às linhas arquitetônicas minimalistas da galeria. É o caso, por exemplo, de “Margens” (2018), em que um tecido translúcido de grandes dimensões com a imagem de uma casa ribeirinha do norte do Brasil balança ao vento, sobreposto ao jardim de Burle Marx – um embate entre a natureza e a paisagem planejada, o dentro e o fora, a casa na floresta e a floresta na casa. 

Uma rústica casa de madeira do interior do Rio Grande do Sul; uma vista inusitada do Congresso Nacional; quartos e outros ambientes pertencentes aos mais diferentes moradores – de anônimos a Juscelino Kubitscheck –; e um barraco à beira-mar para observação das marés por pescadores são algumas das arquiteturas colocadas em diálogo com a casa de Rino Levi. As configurações dessas estruturas remetem à necessidade de improviso e adaptação, característica tão marcante da cultura brasileira como um todo quanto o ideário modernista que se impregnou ao imaginário nacional desde a década de 1950. Em “Reforma”, ganham o primeiro plano os contrastes de uma nação complexa como o Brasil tomados pelo ponto de vista da construção de espaços que, programados ou não, demonstram uma lógica inesperadamente eficiente.

 

 

Rochelle Costi apresenta sua individual na Luciana Brito Galeria 

 

visitação: de 01/09 a 13/10/2018

terça a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 18h