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Galeria Luciana Brito

Héctor Zamora - 1 setembro à 13 outubro

LB News
  • Héctor Zamora, "Nas Coxas", 2018
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Tendo iniciado sua carreira no México com uma pesquisa escultórica de caráter mais formalista em que realizava um comentário dos modernismos latino-americanos através de elementos de uso cotidiano, Zamora observa uma mudança significativa em sua produção a partir de sua participação na 27ª Bienal de São Paulo e subsequente mudança para o Brasil: “Passei a me concentrar mais em obras que estabelecem um diálogo com o contexto de sua apresentação. São ações compostas por dois ou três elementos, como destruir um barco ou fazer telhas de barro, que criam catalisadores capazes de repercutir nas conotações pré-existentes no ambiente local e que ao mesmo tempo conseguem se relacionar com valores universais”, explica.

Em sua realização para a 11a Bienal do Mercosul, “CAPA-CANAL” contou com 13 performers de diferentes gêneros e perfis étnico-raciais – representando a heterogeneidade da população brasileira – que, sentados sobre bancos de madeira, modelaram ao longo de duas horas mais de 500 telhas de barro em suas coxas. Posteriormente, as telhas moldadas foram queimadas, dando origem às peças de cerâmica que são exibidas na Luciana Brito Galeria sob a forma de uma instalação que conta ainda com um vídeo inédito, criado a partir de imagens captadas durante a performance.

A obra parte da expressão popular tipicamente brasileira “feito nas coxas”, utilizada para expressar algo mal feito, a qual supostamente teria suas origens no fato de que os escravos moldavam as telhas em suas coxas. “Está comprovado que nunca foram produzidas telhas nas coxas dos escravos, isso é um mito já descartado por historiadores brasileiros. Acredita-se hoje que a expressão tenha surgido na época do Brasil Império, quando ter relações sexuais antes do matrimônio era proibido”, explica o artista.

A expressão – que em Portugal mantém sua conotação original de masturbação ou roçar de coxas – teria, portanto, um cunho sexual, referindo-se a práticas que de alguma forma contornavam a imposição católica do casamento virgem. “Mesmo assim, essa interpretação sobre o trabalho escravo me parece pertinente e é sim parte da obra, porque, mesmo sendo um mito, reflete algo verdadeiro sobre a realidade brasileira, simbolizando muito bem o racismo e a precariedade das relações de trabalho que perduram no Brasil até hoje”, afirma.

Para a exposição, Zamora prepara ainda uma performance inédita, a ser realizada na abertura da mostra. Concebida para a fachada da Luciana Brito Galeria, a obra parte de uma reflexão sobre as contradições do modernismo brasileiro. Em sua faceta arquitetônica, a modernidade deu origem a construções utópicas, algumas das quais tornaram-se símbolos de um país otimista a caminho do progresso, de uma sociedade mais justa e igualitária. Essas mesmas construções, no entanto, falharam em incluir justamente aqueles que as edificaram, tornando-se eventualmente monumentos a um certo bom gosto acessível apenas às classes mais abastadas, denunciando que, de partida, o projeto moderno carregava em si as sementes de sua falência.

 

 

Héctor Zamora apresenta sua individual na Luciana Brito Galeria 

 

 

visitação: de 01/09 a 13/10/2018

terça a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 18h