Antonio Pichillá | Geometría Intercultural
Futuras exhibition
Apresentação
A Luciana Brito Galeria apresenta Geometría Intercultural, primeira exposição individual do artista guatemalteco Antonio Pichillá no Brasil. Realizada no espaço do Pavilhão da galeria, a mostra reúne obras que sintetizam uma pesquisa desenvolvida ao longo de mais de duas décadas, estruturada a partir da noção de “geometria intercultural”, ou seja, um campo de pensamento no qual tradição, memória ancestral e linguagem abstrata se entrelaçam como formas de conhecimento, identidade e pertencimento. O texto crítico é assinado pela curadora e pesquisadora chilena Alexia Tala.
Antonio Pichilla - Geometría Intercultural
Abertura - 28 de março
Em exposição até 2 de maio
Texto crítico - Alexia Tala
“Geometria intercultural” pode ser compreendida como um campo simbólico no qual formas, padrões e estruturas geométricas atuam como mediadoras entre distintos sistemas de conhecimento. Longe de constituir uma linguagem universal e neutra, a geometria é aqui entendida como uma prática cultural, atravessada por cosmologias, memórias e modos de habitar o mundo.
Há mais de duas décadas, esse conceito orienta a pesquisa artística de Antonio Pichillá, artista indígena de origem maia Tz’utujil, cuja produção se articula em torno do interesse pela arte têxtil e pelas técnicas ancestrais de tecelagem, saberes transmitidos entre gerações e carregados de simbolismos ligados à espiritualidade, ao território e às tradições de seu povo, em San Pedro La Laguna, cidade localizada às margens do Lago Atitlán, na Guatemala.
A exposição Geometría Intercultural propõe, assim, um percurso por diferentes séries e momentos da produção de Antonio Pichillá, ampliando um campo de reflexão sobre a abstração e a espiritualidade como formas de conhecimento, bem como sobre as possibilidades de uma arqueologia do presente.
A exposição Geometría Intercultural propõe, assim, um percurso por diferentes séries e momentos da produção de Antonio Pichillá, ampliando um campo de reflexão sobre a abstração e a espiritualidade como formas de conhecimento, bem como sobre as possibilidades de uma arqueologia do presente.
Entre os destaques da mostra está a instalação Arqueologia Contemporânea (2025), que evoca o legado e a sabedoria ancestrais por meio de pedras e materiais têxteis. Consideradas sagradas, as pedras foram retiradas das montanhas e do Lago Atitlán e submetidas a um ritual com fogo, que lhes confere alegria e imprime as marcas da memória ancestral. De modo semelhante, as f iguras dos abuelos e das abuelas (avôs e avós) assumem papel central na produção do artista, remetendo não apenas à ancestralidade, mas também à memória e à transmissão de saberes. Nas obras La Confradía, Abuelas y Abuelos (2025), Abuela materna (2025) e Abuela (2024), por exemplo, Antonio Pichillá utiliza tecidos, fios, objetos e estruturas que aludem às práticas tradicionais de tecelagem e às vestimentas Tz’utujil, ao passo que subvertem suportes, padrões, escalas e funções.
Em outro trabalho, Códice Textil (2023), o artista evoca o “Códice de Madrid”, manuscrito maia retirado de seu contexto cultural e hoje preservado por uma instituição espanhola. Trata-se de uma referência central, tanto pelas figuras, elementos sagrados e calendários representados quanto pela forma como o conhecimento se organiza visualmente. “Diagramação, repetição, ritmo e acumulação configuram um pensamento geométrico em que imagem, escrita e espiritualidade são inseparáveis”, explica Alexia Tala.
Já nas obras da série Nudo (2017–2019), Antonio Pichillá fixa retalhos de têxteis tradicionais a telas com pinturas geométricas, promovendo a comunhão entre suportes distintos, como o tecido e a tela. Ainda segundo Alexia Tala, “os formatos irregulares, trapézios, retângulos deslocados, tensionam a estabilidade do plano pictórico e evocam, sem estabelecer filiações diretas, os metaequemas de Hélio Oiticica”. Para ela, “essa abordagem permite estabelecer um diálogo fértil com a tradição geométrica da arte no Brasil, especialmente com as correntes que, desde meados do século XX, buscaram deslocar a abstração em direção ao corpo, ao espaço e à experiência”.
A obra de Antonio Pichillá dialoga com uma concepção da geometria como campo expandido, no qual dimensões sensoriais, éticas e políticas se entrecruzam. Sua abstração não reivindica a universalidade moderna; ao contrário, afirma-se a partir da especificidade de um território e de uma história atravessada pela colonização, pela violência e pela resistência.
Obras
