O olhar atento, generoso e bem-humorado sobre situações e espaços que escapam ao rigor modernista do planejamento e da ordem, abraçando – por desejo ou necessidade – o inesperado e o improviso como ferramentas construtivas é característica marcante na produção de Rochelle Costi ao longo das últimas décadas. Se sua obra surge inicialmente a partir de pequenos objetos sem valor monetário que coleciona desde a infância, tomando principalmente a forma de instalações, rapidamente o afã colecionista da artista se expande para além da fisicalidade do mundo. Ela passa, então, a reunir imagens, muitas das quais relacionadas a arquiteturas e às cidades, mas também a espaços domésticos e a outros elementos da intimidade, bem como ao modo de vida de diferentes populações e extratos sociais.
Em “Reforma”, vê-se uma síntese do trabalho que Rochelle vem realizando nas últimas décadas, sob o ponto de vista da arquitetura. Na individual, a artista se apropria da residência modernista Castor Delgado Perez literalmente como suporte para imagens de espaços que não operam pela mesma lógica que o organiza e foram motivados por outros ideais. Com fotografias impressas em canvas a ocupar paredes inteiras, impressões em tecido e sobre papel de diversas dimensões, a artista apresenta cenas que, apesar de clandestinas, parecem se integrar às linhas arquitetônicas minimalistas da galeria. É o caso, por exemplo, de “Margens” (2018), em que um tecido translúcido de grandes dimensões com a imagem de uma casa ribeirinha do norte do Brasil balança ao vento, sobreposto ao jardim de Burle Marx – um embate entre a natureza e a paisagem planejada, o dentro e o fora, a casa na floresta e a floresta na casa.
Uma rústica casa de madeira do interior do Rio Grande do Sul; uma vista inusitada do Congresso Nacional; quartos e outros ambientes pertencentes aos mais diferentes moradores – de anônimos a Juscelino Kubitscheck –; e um barraco à beira-mar para observação das marés por pescadores são algumas das arquiteturas colocadas em diálogo com a casa de Rino Levi. As configurações dessas estruturas remetem à necessidade de improviso e adaptação, característica tão marcante da cultura brasileira como um todo quanto o ideário modernista que se impregnou ao imaginário nacional desde a década de 1950. Em “Reforma”, ganham o primeiro plano os contrastes de uma nação complexa como o Brasil tomados pelo ponto de vista da construção de espaços que, programados ou não, demonstram uma lógica inesperadamente eficiente.
