Augusto de Campos | Poemas e Contratempos

Luciana Brito Galeria, São Paulo, 2019
30 Março 2019
Os primeiros CONTRAPOEMAS de Augusto de Campos, obras que incorporam uma nota de protesto e contestação, foram publicados nos anos 1960, em resposta à mudança no contexto político nacional representada pelo Golpe Militar de 1964. Eles perfazem parte da exposição na Luciana Brito Galeria, que inclui desde LUXO, de 1965, construído sobre a tipografia kitsch de um anúncio de apartamentos de alto luxo, até poemas mais recentes, alguns deles inéditos. É o caso do ready made CLÁUSULA PÉTREA, que é “a mera transcrição de norma fundamental da Constituição brasileira que proíbe que alguém seja considerado culpado, e portanto, privado de sua liberdade, antes de decisão de última instância,e que não está sendo cumprida”, afirma o poeta.
 

Sejam inéditos ou mais antigos, como SOL DE MAIAKÓVSKI (1982/93), os CONTRAPOEMAS se fazem presentes na mostra como forma de oposição ao atual contexto. “Este momento jurídico-político brasileiro me traumatizou muito. Acho trágico para o Brasil o retrocesso imenso que ocorreu desde o impedimento da presidente eleita”, explica. Uma intensa pesquisa de materiais antecedeu a produção da mostra, pois todos os poemas são apresentados em nova finalização, incluindo formatos e suportes expandidos, diversos dos de anteriores exposições. Neste sentido, o destaque vai para a obra LUXO, que se exibe pela primeira vez num molde cogitado por Augusto nos anos 1960, mas que não lhe havia sido então possível executar. Cobrindo um arco de mais de meio século, a exposição passa por vários momentos da sua evolução poética, com ênfase nas artes plásticas.

 

Trata-se de um registro sintético, mas de alta qualidade material, que busca ser fiel aos ideais do poeta, expressos nos aforismos de dois de seus artistas preferidos: Anton Webern: “non multa sed multum”. Emily Dickinson: “Pouco, mas muito.“