• 05.02 - 07.03.26

    Augusto de Campos

    pós poemas
     
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    Prestes a completar 95 anos, Augusto de Campos publicou recentemente o livro pós poemas, que reúne um conjunto de trabalhos, compreendido como um marco de síntese da evolução de sua pesquisa poética. Produzidas ao longo das últimas duas décadas, as obras reunidas no volume deram origem a uma seleção transposta para o espaço da Sala Modernista da galeria, propondo uma experiência não apenas visual, mas também espacial, em diálogo com o ambiente projetado por Rino Levi. No contexto da exposição, os poemas deixam de ser apenas objetos de leitura para se afirmarem como experiências visuais e espaciais: letras tornam-se imagens, cores assumem função semântica, e a disposição gráfica instaura ritmos e tensões que solicitam uma percepção ativa do público.
     
    O poema de Augusto de Campos não se organiza pela linearidade do verso, mas por campos de força visuais e sonoros que desafiam a leitura convencional. Resultantes de um processo iniciado pelo poeta ainda nos anos 1950, essas obras apresentam uma estrutura verbivocovisual, característica do Concretismo, na qual palavra, som, cor e forma se articulam de maneira indissociável. Ao mesmo tempo, incorporam recursos gráficos e digitais próprios do século XXI. Para além do amplo campo tecnológico oferecido pela computação gráfica, utilizada pelo artista desde o início dos anos 1990, Augusto de Campos também experimenta com elementos pontuais de seu contexto, com a ideogramática e a lógica matemática, além de procedimentos de intertextualidade que dialogam com referências como Marcel Duchamp, James Joyce e Fernando Pessoa, entre outros, bem como com estratégias associadas ao conceito de “ready-made".
     
    Nas obras Esquecer (2017) e Vertade (2021), a leitura deixa de ser linear e torna-se também perceptiva, quase física, exigindo do leitor um acompanhamento atento. Em Vertade, Augusto de Campos engana o olhar por meio da troca das letras D e T nas palavras antônimas verdade e mentira, instaurando um curto-circuito semântico que tensiona a confiança na leitura. Já em Esquecer, o artista promove a perda progressiva das palavras a partir de um poema preexistente, resgatado e inserido sobre a superfície de um céu nublado. À medida que atravessam as nuvens, os vocábulos se esmaecem e se confundem com a imagem, provocando um efeito de apagamento visual que se converte em reflexão sensível sobre memória, esquecimento e tempo. Este último, aliás, é também referência central do título da mostra, pós poemas, em que o termo “pós” carrega uma duplicidade semântica: indica tanto o depois quanto o plural de , matéria residual do que foi.
  • A U G U S T O D E C A M P O S “Vertade”, 2021 impressão sobre papel...
    A U G U S T O  D E  C A M P O S
    “Vertade”, 2021

    impressão sobre papel Hahnemühle Photo Rag 308g

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    81 x 81 cm
    31.89 x 31.89 in
    ed 1/5
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  • A U G U S T O D E C A M P O S “Contraluz (Fluorpoema)”, 2021 impressão sobre...
    A U G U S T O  D E  C A M P O S
    “Contraluz (Fluorpoema)”, 2021

    impressão sobre papel Hahnemühle Photo Rag 308g

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    81 x 81 cm
    31.89 x 31.89 in
    ed 1/5
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  • A U G U S T O D E C A M P O S “Esquecer”, 2017 impressão sobre papel...
    A U G U S T O  D E  C A M P O S
    “Esquecer”, 2017

    impressão sobre papel Hahnemühle Photo Rag 308g

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    62 x 64,5 cm
    24.40 x 25.39 in
    ed 1/5
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  • Augusto de Campos

    1931, São Paulo, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, Brasil.
  • Augusto de Campos é um dos maiores expoentes da poesia concreta no Brasil, além de ensaísta, tradutor, e crítico literário e musical. Sua criação artística é permeada pela experimentação da linguagem, através da ideia de unidade entre os diversos recursos comunicacionais, como palavra, som e imagem. Seus poemas visuais e poemas-objetos marcaram as décadas de 1960 e 70, sendo definitivos para posicioná-lo na vanguarda artística no Brasil. A partir de 1990, intensificou seus experimentos com as novas mídias, apresentando seus poemas em diferentes veículos, como outdoors elétricos, videotexto, neon, holograma, laser, computação gráfica, e em eventos multimídia, com os quais trabalha até os dias atuais.
     
    Ativo desde o final dos anos 1940, em 1952 lançou a revista literária Noigandres, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, introduzindo o movimento internacional da poesia concreta no Brasil. Em 1956, participou da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta no Brasil, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Alguns de seus projetos mais emblemáticos são estudados até hoje, como “Viva Vaia” (1949/1979) e os poemas-objetos em parceria com o artista Julio Plaza, “Poemóbiles” (1974) e “Caixa Preta” (1975). Ainda em 1975, produziu “Pulsar”, poema que fez parte da série “Stelegramas” (1975-78), considerado o primeiro “poema constelação” do artista e um de seus melhores exemplos de construção poética. Seus poemas já foram reunidos em mais de 15 publicações, entre elas: Despoesia (1993), Não (2003), Outro (2015) e mais recentemente, Pós Poemas (2025). Como tradutor, trabalhou com obras de Ezra Pound, James Joyce, Gertrude Stein, E.E. Cummings, Vladimir Maiakovski, Marina Tsvetaeva, Arnaut Daniel, John Donne, Gerard Manley Hopkins, Stéphane Mallarmé, Arthur Rimbaud e outros. Augusto de Campos foi recentemente contemplado com os prêmios Internacionais: Prêmio Ibero-Americano de Poesia Pablo Neruda, 2015, e Grande Prêmio de Poesia Janus Pannonius, 2017.