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Antonio Pichillá
Geometría Intercultural
Texto Alexia Tala28.03 - 02.05.26 -
Antonio Pichillá | Geometría Intercultural
geometria, espiritualidade e arqueologias do presenteNão é que as pedras sejam mudas,
Apenas guardam silêncio.
Humberto Ak'abal
A obra de Antonio Pichillá sustenta-se na espiritualidade como uma coluna vertebral que atravessa todas as suas séries, materiais e dispositivos. Não se trata de uma espiritualidade entendida como abstração desligada do mundo material nem como uma transcendência desistoricizada, mas de uma espiritualidade profundamente situada, enraizada na cosmovisão maia e nas práticas vivas de sua comunidade em San Pedro La Laguna. Em seu trabalho, o espiritual não aparece como tema, mas como estrutura, é sua forma de organizar o mundo, de pensar o tempo e de relacionar corpo, território e memória.Dentro de seu universo, a geometria ocupa um lugar central. Longe de operar como uma linguagem formal autônoma, a geometria em sua obra funciona como um sistema simbólico carregado de sentido, herdeiro de saberes ancestrais que se manifestam tanto nos códices maias quanto nos têxteis elaborados em tear. Em particular, o erroneamente chamado Códice de Madrid — um manuscrito maia extraído de seu contexto cultural e atualmente resguardado em uma instituição na Espanha — torna-se uma referência-chave, não apenas pelas figuras que abriga — elementos sagrados, calendários, a serpente emplumada —, mas pela maneira como o conhecimento se organiza visualmente. Diagramação, repetição, ritmo e acumulação configuram um pensamento geométrico em que imagem, escrita e espiritualidade são inseparáveis.Essa mesma lógica atravessa os tecidos maias, transmitidos de geração em geração, especialmente aqueles vinculados ao traje tradicional do povo Tz’utujil. Neles, a geometria não é rígida nem matemática, mas flexível e orgânica, intimamente ligada ao corpo que a veste. Cada padrão é, ao mesmo tempo, ornamento, relato e marcador identitário; cada variação introduz uma diferença que mantém viva a linguagem têxtil. Pichillá não tem o menor interesse em ver esses tecidos como citações etnográficas, ao contrário, ele os entende como portadores de um conhecimento ativo, capaz de dialogar com o presente sem perder sua densidade histórica.As obras Abuelo e também Abuela mostram de forma clara essa operação. Tomando como ponto de partida a vestimenta tradicional Tz’utujil — com suas linhas verticais negras e os têxteis elaborados por mulheres tecelãs —, o artista modifica padrões, escalas e funções. Em Abuelo, pinta o padrão geométrico sobre tela e depois sobrepõe, por meio de fios, uma trama de efeitos cinéticos, articulando a linguagem geométrica ancestral com o formato canônico da pintura ocidental. Mais do que trasladar um motivo de um suporte a outro, Pichillá ativa uma zona de fricção entre distintos sistemas visuais e culturais. A tela deixa de ser um espaço neutro para se converter em um campo de negociação, onde ambas as linguagens coexistem sem hierarquias nem assimilações forçadas.A noção de “geometria intercultural” permite pensar sua prática artística para além das categorias provenientes da história da arte moderna. Em contraste com uma abstração geométrica desenvolvida historicamente a partir dos grandes centros artísticos, sua obra desloca a ênfase para uma abstração situada e relacional. Aqui, a geometria não surge do gesto individual nem do isolamento formal, mas de uma trama de vínculos familiares, saberes coletivos e memórias transmitidas, na qual o fazer têxtil ocupa um lugar central.Em obras como Nudo (2017), que integra uma série em processo, o artista amarra um têxtil tradicional a uma pintura geométrica sobre tela, atando fisicamente ambos os suportes como quem afirma: “aqui nos unimos e nos correspondemos”. A partir de 2019, essa investigação expandiu-se para formatos irregulares — trapézios, retângulos deslocados — que tensionam a estabilidade do plano pictórico e evocam, sem estabelecer filiações diretas, os metaequemas de Hélio Oiticica.Essa abordagem permite estabelecer um diálogo fértil com a tradição geométrica da arte no Brasil, especialmente com aquelas correntes que, desde meados do século XX, buscaram deslocar a abstração em direção ao corpo, ao espaço e à experiência. Sem equivalências formais nem genealogias fechadas, a obra de Pichillá ressoa com uma compreensão da geometria como campo expandido, onde o sensorial, o ético e o político se entrelaçam. Sua abstração não aspira à universalidade moderna, mas afirma-se a partir da especificidade de um território e de uma história marcada pela colonização, pela violência e pela resistência.Como contraponto material aos têxteis e às telas, as pedras ocupam um papel central na série recente do artista. Pichillá as recolhe, envolve-as em têxteis tradicionais da cultura maia e as dispõe diretamente sobre o chão, ativando uma relação distinta com o espaço expositivo. Essas peças podem ser lidas a partir da noção de uma arqueologia contemporânea: não uma escavação do passado como objeto morto, mas uma convocação do tempo profundo no presente. A pedra aparece como corpo ancestral, anterior à história humana, portadora de uma memória geológica que dialoga com a memória têxtil.Nesse ponto, a poesia de Humberto Ak'abal ressoa como uma voz afim. Em seus versos, a pedra não é um objeto inerte, mas um ser que escuta, que relembra, que pensa e que permanece em silêncio. Essa sensibilidade atravessa também as instalações de Pichillá, nas quais a matéria se torna interlocutora e a arte, uma forma de escuta. A arqueologia aqui proposta não classifica nem ordena; ao contrário, relaciona, cuida e ativa.Ao longo de seus 20 anos de trajetória, Antonio Pichillá constrói uma noção de “geometria intercultural” em que passado, presente e futuro não se organizam de maneira linear, mas como camadas coexistentes de experiência e conhecimento. A geometria, o têxtil e a pedra não operam como linguagens separadas, mas como estratos de um mesmo pensamento visual e espiritual, capaz de articular memória, corpo e território.Esta primeira exposição individual em São Paulo não apenas apresenta um percurso por diferentes séries e momentos de sua produção, mas também abre um campo mais amplo de reflexão sobre a abstração e a espiritualidade como formas de conhecimento e sobre as possibilidades de uma arqueologia do presente. A partir da noção de geometria intercultural, a obra de Pichillá propõe uma contemporaneidade não violenta: um espaço de convivência entre saberes onde múltiplas histórias e sensibilidades podem coexistir sem se anular.Alexia Tala -
A N T O N I O P I C H I L L Á“Arqueologia contemporânea”, 2022
pedras e tecidos artesanais
stones and handmade textiles
dimensões variáveisvariable dimensionsView more details -
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Antonio Pichillá
1982, San Pedro La Laguna, Guatemala. Vive e trabalha em San Pedro La Laguna, Guatemala.Artista indígena do povo Maia Tz'utujil, Antonio Pichillá trabalha com suportes variados, mas encontra na tecelagem seu principal foco de interesse. Para ele, os processos e materiais que envolvem as tradições têxteis representam uma forma de resgatar sua ancestralidade, fortalecendo especialmente a memória das mulheres de sua família. Sua pesquisa baseia-se também na coletividade, cultura e símbolos de seu povo, natural da região do Lago Atitlan (Guatemala).Possui graduação pela Escuela Nacional de Artes Plásticas Rafael Rodríguez Padilla, Guatemala. É membro do grupo TEI-CA (Oficinas de Estudos e Pesquisa em Ciência e Arte). Dentre as exposições individuais mais importantes, estão as que foram apresentadas no International Centre of Graphic Arts – MGLC (2024, Eslovênia), Museum of Contemporary Art Santa Barbara (2023, EUA), La Nueva Fábrica, Santa Ana (2022, Guatemala). Dentre as coletivas estão as da 24ª Bienal de Arte Paiz (2025, Cidade da Guatemala, Guatemala), Barbican Centre (2024, Inglaterra), The Institute for Studies on Latin American Art ISLAA (2024, EUA), 22a Bienal Sesc VideoBrasil (2023-24, Brasil), Denver Art Museum (2022, EUA); Trienal de Kathmandu (2022, Nepal), 11ª Bienal de Arte Contemporânea de Berlim (2020, Alemanha), Bienal Arte Paiz (2002, 2010 e 2014, Guatemala), etc. Sua obra figura nas coleções do Museo d’Art Contemporani de Barcelona - MACBA (Espanha), Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Espanha), Denver Art Museum (EUA) e Tate Modern (GB). Prêmios mais importantes: Bienal Indígena Intercontinental - Menção Honrosa (2012, México) e Juannio Latin American Art Contest / Auction (2017, Guatemala). -













