Flores e Vasos: curadoria Nessia Pope
A Luciana Brito Galeria tem o prazer de apresentar Flores e Vasos, no espaço do Pavilhão. Com curadoria de Nessia Pope, Flores e Vasos reúne fotografias de Rochelle Costi (1961–2022, Brasil), Gaspar Gasparian (1899–1966, Brasil) e Robert Mapplethorpe (1946–1989, EUA), tomando as representações de flores e vasos como eixo para estabelecer um diálogo entre três gerações e distintas abordagens da fotografia.
Flores e Vasos - Rochelle Costi, Gaspar Gasparian, Robert Mapplethorpe
Curadoria de Nessia Pope
Abertura: 22 de agosto, das 12h às 17h
Em exposição até 17 de outubro
Flores e Vasos
Rochelle Costi, Gaspar Gasparian, Robert Mapplethorpe
Historicamente associados à tradição da natureza-morta, flores e vasos são aqui reconfigurados por meio de olhares singulares, atravessados por diferentes contextos, procedimentos e sensibilidades. Essa temática atravessa a história da arte como um campo fértil de experimentação formal e simbólica, ocupando um lugar central na tradição da natureza-morta. A partir dos séculos XVI e XVII, artistas europeus passaram a explorá-la como exercício de observação e virtuosismo técnico. Com o advento da fotografia, no século XIX, esse repertório é retomado e reinterpretado: mais do que a dimensão estética dos arranjos, entram em jogo questões como enquadramento, luz, encenação e serialidade. Nesse contexto, flores e vasos transcendem sua condição de meros motivos pictóricos para se constituírem como dispositivos de reflexão acerca do tempo, da forma, da sensualidade e da experiência cotidiana.
Nas fotografias de Gaspar Gasparian, flores e vasos emergem do silêncio, por meio da construção de composições rigorosas, nas quais cada elemento parece cuidadosamente medido. O que se revela não é apenas o arranjo, mas um estado de suspensão, em que o tempo se imobiliza e a imagem se afirma como articulação de forma, luz e permanência. Um aspecto fundamental de sua produção, sobretudo nas décadas de 1940 e 1950, é a construção de cenários em estúdio, concebidos como espaços de experimentação. Neles, Gaspar Gasparian organizava flores, vasos e outros elementos com precisão, controlando minuciosamente a iluminação e o enquadramento. Esses arranjos, ao mesmo tempo que dialogam com a tradição da natureza-morta, evidenciam a fotografia como campo de construção, no qual cada imagem resulta de decisões formais rigorosamente elaboradas.
Já Robert Mapplethorpe aborda o tema a partir de uma dimensão simultaneamente formal e sensual. Nos anos 1970 e 1980, o artista desenvolveu suas célebres séries de flores (lírios, orquídeas e tulipas) em fotografias isoladas ou dispostas em vasos simples, contra fundos neutros. À primeira vista, essas imagens dialogam com a tradição clássica por meio de composições equilibradas e de uma iluminação controlada, contraste acentuado e rigor técnico, de caráter quase escultórico. No entanto, as flores deixam de ser meros elementos decorativos ou alegóricos e passam a ser tratadas como corpos, atravessados por erotização e sensualização, especialmente nas orquídeas.
Rochelle Costi, por sua vez, em produção mais recente (entre 2015 e 2022), explora a temática a partir de uma dimensão relacional e cotidiana, elaborando anseios, memórias e inquietações por meio do que está no seu dia a dia. A artista encontrava seus objetos de investigação no ambiente doméstico e no entorno do bairro onde vivia, o Pacaembu, região de caráter relativamente bucólico na cidade de São Paulo. Diferentemente de Gaspar Gasparian e Robert Mapplethorpe, Rochelle Costi construia arranjos florais vibrantes, marcados por uma dimensão afetiva e sensível, utilizando flores coletadas e vasos provenientes de sua própria coleção, ou ainda recipientes improvisados, como garrafas, potes e outros objetos banais, que ganham presença e significado nas composições. Seu olhar se intensifica na articulação entre cor, excesso e certa estética kitsch, revelando, nas imagens, modos de vida, gostos e formas de afeto.
Ao aproximar Gaspar Gasparian, Robert Mapplethorpe e Rochelle Costi em torno da tradição da natureza-morta de flores e vasos, a exposição Flores e Vasos coloca em diálogo três gerações e contextos distintos da fotografia. Em Gaspar Gasparian, os arranjos são cuidadosamente encenados, revelando um interesse experimental e formal, herdado do experimentalismo inédito do Foto Cine Clube Bandeirante; em Robert Mapplethorpe, flores e vasos são depurados e monumentalizados como formas escultóricas, atravessadas por tensão simbólica e erótica; já Rochelle Costi desloca esse repertório para o campo do cotidiano e do afeto, evidenciando hábitos e construções culturais. Entre encenação, idealização e contingência, os três artistas reconfiguram o gênero, expandindo-o como campo de investigação sobre forma, corpo e vida social.
