Antonio Pichillá | Geometría Intercultural

Luciana Brito Galeria, São Paulo, 2026
17 Abril 2026
A obra de Antonio Pichillá articula-se a partir de uma espiritualidade profundamente situada, enraizada na cosmovisão Maia e nas práticas vivas do povo Tz’utujil em San Pedro La Laguna, Guatemala. Em seu trabalho, a espiritualidade não surge como um tema representado, mas como uma estrutura ativa que organiza a relação entre corpo, território, memória e tempo. Essa dimensão atravessa todos os materiais e dispositivos que o artista utiliza, desde o têxtil e a pintura até a pedra, configurando uma prática em que o fazer e o pensar são inseparáveis.
Dentro de seu universo criativo, a geometria ocupa um lugar central. Longe de funcionar como uma linguagem formal autônoma ou como uma herança abstrata universal, a geometria em Pichillá manifesta-se como um sistema simbólico carregado de sentido, herdeiro de saberes ancestrais transmitidos por meio dos códices maias e dos tecidos realizados em tear. Essas linguagens visuais não operam como arquivos do passado, mas como conhecimentos vivos que se atualizam por meio da repetição, da variação e do ritmo.
As obras reunidas nesta exposição colocam em tensão diferentes sistemas de conhecimento. Ao intervir em têxteis tradicionais, pintar padrões geométricos sobre tela ou amarrar têxteis tradicionais à pintura, Pichillá ativa fricções férteis entre práticas indígenas e linguagens históricas da arte ocidental. Essas operações não buscam traduzir uma linguagem em outra nem estabelecer equivalências formais, mas gerar um espaço de negociação em que ambas coexistem sem hierarquias ou assimilações forçadas. 
A noção de uma “geometria intercultural” permite repensar a abstração a partir de uma perspectiva situada e relacional. Diante de uma abstração moderna definida pela universalidade e pelo gesto individual, sua obra propõe uma abstração construída a partir de vínculos comunitários, genealogias familiares e saberes transmitidos, na qual o trabalho têxtil — historicamente sustentado pelas mulheres — ocupa um lugar fundamental.
Como contraponto material aos têxteis e às pinturas, a presença de pedras na exposição introduz uma dimensão de arqueologia contemporânea. Ao envolvê-las em têxteis e dispô-las diretamente sobre o chão, Pichillá convoca um tempo profundo que conecta a temporalidade geológica da pedra com a memória cultural. Em seu conjunto, esta exposição propõe uma compreensão ampliada da geometria como linguagem de convivência entre mundos, histórias e formas diversas de conhecimento, afirmando uma contemporaneidade construída a partir da relação e do cuidado.