Antes de qualquer forma se fixar, há um campo que se anuncia como vibração difusa. Algo se espalha, ocupa o espaço, atravessa o corpo sem pedir nome. A percepção desacelera, ajusta sua respiração, entra em outro regime de atenção. O olhar deixa de buscar e começa a acompanhar. Há uma espécie de suspensão onde tudo se mantém em estado de aparecimento, como se a imagem ainda estivesse se formando diante de nós.
A exposição de Tiago Tebet na Luciana Brito Galeria se organiza sob o título Between You and Me, the Sun and the Moon, como um sistema de relações em ativação contínua. Cada trabalho emite, sustenta e transforma frequências, estruturando o espaço como uma constelação sensível onde elementos autônomos entram em ressonância e produzem zonas de intensidade. É nesse campo que pensamento e imagem se entrelaçam quase como constelação, configurando uma experiência que se atualiza no tempo do olhar.
A aproximação com esse trabalho acontece como uma forma de atenção. Há uma intensidade que atravessa as superfícies e se afirma como presença. A experiência vital se acumula, se tensiona e se reorganiza continuamente. O olhar se expande como percepção, um corpo que sente antes de reconhecer, que se envolve antes de nomear. Essa força atravessa a vida de Tiago de maneira contínua, conectando experiência e forma em um mesmo fluxo.
O corpo inaugura esse processo. O gesto estabelece as primeiras ondas, e a memória do movimento permanece ativa na construção da imagem, criando uma pulsação contínua. No ateliê, cada pintura começa como ativação de uma zona instável e se desenvolve por acúmulo, deslocamento e interferência. Há um momento em que a obra assume a condução, organizando suas próprias relações internas enquanto o artista sustenta esse campo em transformação por meio de uma atenção constante.
Há um instante em que tudo se torna mais lento. A superfície deixa de ser apenas vista e passa a ser habitada. Pequenas variações ganham espessura, intensidades quase imperceptíveis começam a se destacar. O olhar percorre e permanece. Como em um estado meditativo, a imagem se abre em camadas sucessivas. O tempo se dilata, e o que aparece não se fixa; continua.
A pintura faz vibrar o visível. A superfície se apresenta como uma zona de incidências onde densidade e abertura coexistem, conduzindo o olhar por uma experiência de duração. As obras se articulam como constelações, nas quais elementos mantêm sua singularidade enquanto entram em relação. Corpos e paisagens emergem como presenças em trânsito, habitando um espaço entre onde o visível se torna experiência energética. Cada trabalho ativa um regime específico, organizando a percepção como vibração.
Nas pinturas de Tiago, surgem duas formas de presença que organizam a experiência de modo distinto. Em algumas obras, aparecem seres condensados em aglomerações de energia, quase figuras em estado de formação, olhos, centros de atenção que flutuam na superfície e parecem captar, emitir e reter. Esses corpos sem contorno estável instauram uma presença de entidade, de aparição, de força que se oferece como intensidade.
Olhos sem rostos aparecem como dispositivos de atenção, em que a imagem parece olhar de volta. O motivo ocular se multiplica e se contamina com o entorno, fazendo ver e ser visto quase indistinguíveis. Essa pintura preserva uma pergunta aberta e ativa um espaço de pensamento, onde a figura insiste como emergência, quase rosto, quase órgão de percepção. O que se impõe é uma topologia de forças, com núcleos circulares, vapores cromáticos e pequenas irrupções de brilho entre formação e dissolução. Tiago os descreve como seres que atravessam culturas, religiões e tempos, entre o humano, o cósmico e o terrestre. A obra não ilustra essa fala: ela a encarna como deformação sensível, espessura instável do visível, entre luz e sombra, anterioridade e futuro. Nesse ponto, a pintura se abre como um Sol cosmológico, fonte de emissão e gravidade sensível que reorganiza o olhar em constelação.
Em outros momentos, o espaço é conduzido por um movimento rítmico, musical, cósmico, construído por repetições, pulsações e recorrências que reorganizam o tempo da visão. A imagem se desdobra como frequência, criando uma temporalidade própria, em que o olhar entra num fluxo contínuo e o espaço se torna expansão sensível. Nesse regime, a pintura atua como sequência de ressonâncias, e a experiência se aproxima de uma escuta do visível, onde repetição e variação estruturam o campo pictórico.
É nesse ponto que a pintura se aproxima também de uma dimensão profundamente vivida do fazer artístico, uma espécie de travessia onde o gesto se constrói no contato com o mundo. Como na lembrança evocada por Milton Nascimento, em que “muita gente boa pôs o pé na profissão / de tocar um instrumento e de cantar”, a prática aqui não se separa da experiência, mas se alimenta dela. “Cantar era buscar o caminho / que vai dar no Sol” e, nesse mesmo impulso, a pintura de Tiago se organiza como um campo orientado por esse Sol cosmológico, uma fonte de emissão, expansão e gravidade sensível que reorganiza o olhar em constelação.
Realizadas em seu estúdio em Berlim, as pinturas introduzem uma nova ambiência, marcada por silêncio, tempo expandido e maior densidade. A prática se afirma como processo contínuo de transformação, no qual o artista se desloca dentro do próprio trabalho. No espaço expositivo, as obras se expandem como sistema de relações, e o olhar participa ativamente dessa construção. Cada trabalho guarda a memória de um acontecimento que permanece em circulação, ativo no tempo de quem olha.
No claro, um sopro se derrama,
e o ar se curva em estado de erosão;
tudo se inflama, tudo se reprograma
num centro móvel de transformação.
Há um rasgo que o espaço chama,
um rio de força em plena diluição;
cada impulso vibra, incendeia e proclama
a gravidade de sua própria pulsação.
Tudo parece nascer enquanto some:
uma flora de ar, uma louca de pressão,
como se a cena guardasse um nome
que só se escuta ao perder a razão.
E quem entra ali, tomado desse dome,
se deixa levar por pura expansão.
Ricardo Carioba
Berlim, 15 de maio de 2026