• Flores e Vasos

    Gaspar Gasparian
    Robert Mapplethorpe
    Rochelle Costi
     
    Curadoria Nessia L. Pope
     
    22.08 - 17.10.26
  • Flores e Vasos

    A contradição é inevitável: no auge de seu esplendor, a flor já anuncia o próprio declínio; ao entrar em decomposição, evoca a brevidade da vida. A tradição da vanitas — gênero da pintura que, por meio de símbolos como flores e objetos efêmeros, remete à transitoriedade da existência — se manifesta aqui de forma clara: ao mesmo tempo em que celebra o presente, a flor também afirma a inevitabilidade do fim. Na pintura, na escultura, na fotografia e em outras mídias, a flor é um tema inegostável e universal. 

     

    Em um cenário marcado por instabilidade e desordem política, social e ecológica em nosso planeta, eu quis oferecer aqui — cercada pelo jardim de Roberto Burle Marx — uma pausa, um convite a um olhar mais lento e reflexivo, um gesto de resistência.

     

    Um tema. Três abordagens.

     

    Gaspar Gasparian, empresário paulista, apaixonou-se pela fotografia na década de 1940, ao mesmo tempo em que descobriu as nuances delicadas do preto e branco e os efeitos da luz natural. Suas flores parecem marcadas pelo tempo, levemente imperfeitas, como se estivessem prestes a murchar. Interessado pela organização geométrica do espaço, incorporou elementos inesperados em suas composições —  pratos de cerâmica, cortinas, mesas —, desenvolvendo uma linguagem visual singular, de viés formalista e livre de sentimentalismo. O olhar sereno de Gasparian conduz a um estado de contemplação e devaneio. Seu encantamento é tambem o nosso. 

     

    As flores de Robert Mapplethorpe, por sua vez, surgem descontextualizadas e dialogam com o trabalho que produziu em Nova York nas décadas de 1970 e 1980. Sensuais e, muitas vezes, eróticas, são fotografadas em estúdio, sobre fundos neutros ou escuros, evocando formas esculturais semelhantes às que o artista aplicava em suas célebres séries de corpos nus, idealizados e reconhecidos por sua perfeição. Suas imagens são inconfundíveis, com impacto imersivo, elevando a flor a uma experiência de ordem psicológica.

     

    A série Florada, de Rochelle Costi, foi realizada durante caminhadas pelo bairro do Pacaembu, em São Paulo, onde residia na época. Ao colher flores nas ruas e em jardins particulares, ela levava os buquês improvisados para casa, onde os dispunha em vasos, mesas e estantes, no contexto doméstico. Seus arranjos florais são espontâneos, mas ao mesmo tempo cuidadosamente elaborados em termos de cor e forma, como se a artista exercesse um delicado gesto de controle sobre a própria natureza. As flores são alegres e provocam prazer, mas também uma certa inquietação. Deixam de ser objetos isolados para, inseridas no ambiente da casa, adquirirem novos significados, associados tanto à tradição fotográfica de imortalizar a imagem, quanto à prática do colecionismo, inerente ao processo de criação da artista. 

     

    Essas três sensibilidades trazem distintas experiências emocionais e conceituais  afirmando assim o potencial expressivo da flor. 

     

    Nessia L. Pope

  • Rochelle Costi

    1961, Caxias do Sul, Brasil - 2022, São Paulo, Brasil.
  • R O C H E L L E C O S T I “Florada Fevereiro 2018 • Ninféia”, 2018/2022 impressão...
    R O C H E L L E  C O S T I
    “Florada Fevereiro 2018 • Ninféia”, 2018/2022

    impressão jato de tinta sobre papel de algodão

    inkjet print on cotton paper

    120 x 80 cm
    47.24 x 31.5 in
    ed 7/8

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  • “Florada é um conjunto de fotos que se relacionam com os ciclos da natureza”


    - Rochelle Costi

     

    Assim como vários outros trabalhos da minha mãe, tive o privilégio de acompanhar de perto a criação da coleção Florada. Rochelle gostava de acordar cedo para caminhar, às vezes sozinha, às vezes com a Branquinha, nossa cachorra, e sempre voltava com algo novo, seja algo que ela havia observado ou fotografado, ou alguma coisa que havia pegado no caminho. Entre os tesouros que ela trazia da rua havia sempre plantas, que combinavam com a vasta diversidade de flora do nosso quintal e jardim, além dos vários vasos espalhados pela casa. 


    A iluminação da nossa casa era fantástica e as manhãs de sol eram sempre místicas e até misteriosas. Sinto que isso foi de grande inspiração para que minha mãe começasse a fotografar os vasos. Na época em que ela começou a formar essa coleção eu estava no fim do ensino médio, então ela acordava comigo. Imagino que via a cena mística das manhãs de sol e, quando saia para caminhar, ficava idealizando em sua mente absurdamente criativa, possibilidades maravilhosas de arranjos. De volta para casa, transformava essas visões em composições, dando forma às ideias concebidas durante o percurso. Imagino dessa forma porque quando eu voltava para casa depois da aula lá estava ela com a câmera no tripé, fotografando em luz natural suas criações. 


    Sempre que vou falar de Rochelle preciso dizer sobre a alegria que tenho em poder ter aprendido com ela um pouco do seu jeito de ver o mundo, poder observar algo e ao mesmo tempo em que ela dizer: “você viu aquilo?”. Minha mãe via o mundo de uma maneira fantástica e eu sou muito feliz pela possibilidade de podermos ver um pouco disso tudo em suas obras e também na forma em que eu também observo o mundo. 

     

    Zero Costi Martín

  • A obra de Rochelle Costi trata da memória afetiva. Essa que normalmente levanta a poeira do nosso subconsciente, acionada por...
    R O C H E L L E  C O S T I
    “Florada Novembro 2016 • Lírio”, 2016

    impressão jato de tinta sobre papel de algodão

    inkjet print on cotton paper

    120 x 80 cm
    47.24 x 31.5 in

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    A obra de Rochelle Costi trata da memória afetiva. Essa que normalmente levanta a poeira do nosso subconsciente, acionada por um dispositivo: a imagem. Sua pesquisa parte de seu próprio repertório imagético, para então ser formalizada através da técnica apurada da fotografia, vídeos e instalações. O colecionismo e a fotografia não apenas se complementam, como também se fundem, levando o espectador a um confronto íntimo com esse universo, que passa a ser comum a todos.

     

    Obteve formação em Comunicação Social pela PUC-RS e especialização pela Saint Martin School of Art e Camera Work, em Londres. Dentre os espaços em que apresentou mostras individuais estão: Casa do Povo, São Paulo, Brasil (2024); Solar dos Abacaxis, Rio de Janeiro, Brasil (2023); Estúdio Extraordinário, Itú, Brasil (2023); Oficinas Culturais Oswald de Andrade, São Paulo, Brasil (2021); The Photographer’s Gallery, Londres, Inglaterra (2016), Museu de Arte Moderna - MAM, São Paulo (2010); Centro Cultural São Paulo – CCSP, Brasil (2009); Museu da Imagem e do Som, São Paulo, Brasil (2008) e Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil (2005). Entre as exposições coletivas mais significativas estão a BienalSur, Brasil e Argentina (2023); Casa do Parque, Brasil (2023); Solar dos Abacaxis, Brasil (2023); Museu da Imagem e do Som-MIS, São Paulo, Brasil (2022); Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil (2023 e 2020); III Beijing Photo Biennial, Beijing, China (2018); Museu de Arte de São Paulo - MASP, Brasil (2018); Bienal de la Paiz, Guatemala (2016); Somerset House, Londres, Inglaterra (2012); a 11th International Architecture Exhibition, Veneza, Itália (2008); 24a Bienal de São Paulo, Brasil (2010 e 1998); Bienal de Cuenca, Equador (2009); XXVI Bienal de Pontevedra, Espanha (2000); Centro de Arte Reina Sofia, Madri, Espanha (2000); II Bienal do Mercosul, Porto Alegre (1999); 6ª e 7ª Bienal de Havana, Cuba (1997 e 1999); II Tokyo Photography Biennial, Japão (1997). Seus trabalhos fazem parte de acervos como Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA), Instituto Inhotim (Brasil), MASP (Brasil), MAM-SP/RJ (Brasil), Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil) e Museum Moderner Kunst Stiftung Ludwig (Áustria), entre outros.

  • Gaspar Gasparian

    1899, São Paulo, Brasil - 1966, São Paulo, Brasil.
  • G A S P A R G A S P A R I A N “Móbiles”, 1947 fotografia em gelatina...
    G A S P A R  G A S P A R I A N
    “Móbiles”, 1947

    fotografia em gelatina e prata

    silver gelatin print

    38,6 x 29,3 cm
    15.20 x 11.53 in
    ed vintage

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  • G A S P A R G A S P A R I A N “Flores e cerâmica”, 1940 fotografia...
    G A S P A R  G A S P A R I A N
    “Flores e cerâmica”, 1940

    fotografia em gelatina e prata

    silver gelatin print

    29 x 39,4 cm
    11.41 x 15.51 in
    ed vintage

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  • Meu pai viveu uma vida plena de trabalho, realizações e afetos. Ainda que tenha sido um industrial de sucesso, soube captar a poesia do cotidiano e as maravilhas da natureza.


    Ele gostava de fotografar pela manhã. Ao nascer do sol, já estava com a câmera em mãos, atento à luz e às sombras. Cada minúcia tornava-se um motivo significativo. Era, em tudo, um homem do detalhe.


    Ao longo de 18 anos, meu pai transitou da natureza-morta ao abstrato. Todas as segundas-feiras à noite, recolhia-se no seu estúdio, instalado em casa, onde montava suas fotografias com os diversos objetos que acumulava: vidros, vasos, cenários etc. Mantinha também uma biblioteca dedicada à fotografia e ali permanecia por horas, imerso em seu trabalho.
     
    No curto período em que convivemos, guardei a imagem de um homem encantado com a vida. Brincalhão e sempre animado. Suas fotografias refletem essa personalidade alegre e vibrante. Como observou Pietro Maria Bardi: “além de paciente, foi justo; soube perceber o momento certo.”

     

    Gaspar Gasparian Filho

  • G A S P A R G A S P A R I A N “Dálias”, 1946 fotografia em gelatina...
    G A S P A R  G A S P A R I A N
    “Dálias”, 1946

    fotografia em gelatina e prata

    silver gelatin print

    34,2 x 29,1 cm
    13.46 x 11.45 in
    ed vintage

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  • O legado de Gaspar Gasparian está associado ao seu papel na consolidação da fotografia brasileira como arte autônoma, acima do...
    G A S P A R  G A S P A R I A N
    “Crisandália”, 1940

    fotografia em gelatina e prata

    silver gelatin print

    37,9 x 29,01 cm
    14.92 x 11.45 in
    ed vintage

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    O legado de Gaspar Gasparian está associado ao seu papel na consolidação da fotografia brasileira como arte autônoma, acima do registro documental. O artista foi um dos grandes colaboradores do Foto Cine Clube Bandeirante e, juntamente com Geraldo de Barros, Thomaz Farkas e outros, integrou a “escola paulista da fotografia”, como eram chamados pela imprensa da época. Em suas primeiras fotografias, trabalhava principalmente paisagens e naturezas-mortas. Mais tarde, partiu para o experimentalismo, encontrando na abstração geométrica seu maior interesse. Em seu estúdio, criava seus próprios cenários para fotografar, os famosos “tabletops”, onde capturava as qualidades formais dos objetos e criava composições fotográficas inusitadas. 

     

    Sua carreira fotográfica começou em 1940. Em 1942, tornou-se membro do Foto Cine Clube Bandeirante. Recebeu o Prêmio Anchieta por sua participação no Salão Paulista de Arte Fotográfica (1940, São Paulo) e a medalha de prata na Exposição Internacional de Arte Fotográfica (1952, Rio de Janeiro). Realizou exposições individuais em instituições consagradas como Museu Oscar Niemeyer (2011, Curitiba), Pinacoteca de São Paulo (2010) e Museu da Imagem e do Som (1990, São Paulo). Já entre os locais onde participou de exposições coletivas, destacam-se Museu da Imagem e do Som Ceará (2025, Fortaleza, Brasil), Arles Les Rencontres de la Photographie (2025, Arles, França), Museum of Fine Arts Houston (2023, Houston, EUA), Museum of Modern Art – MoMA (2021, Nova York, EUA), Museu de Arte de São Paulo (2018), Tate Modern (2018 e 2016, Londres, Inglaterra), Itaú Cultural (2017, São Paulo), Whitechapel Gallery (2015, Londres, Inglaterra), ICP – International Center of Photography (2014, Nova York, EUA), Centro Cultural São Paulo (2009), Cisneros Fontanals Art Foundation (2006, Miami, EUA). Participou de diversos salões e festivais de fotografias entre as décadas de 1960 e 70, no Brasil e no exterior. Sua obra integra coleções como Masp (Brasil), Tate Modern (Inglaterra), MoMA-NY (EUA), Cisneros Fontanals Art Foundation, entre outras.

  • Robert Mapplethorpe

    1946, Floral Park, EUA - 1989, Boston, EUA.
  • R O B E R T M A P P L E T H O R P E “Flower”, 1980...
    R O B E R T  M A P P L E T H O R P E
    “Flower”, 1980

    fotografia em emulsão de prata

    gelatin silver print

    50,8 x 40,64 cm
    20 x 16 in
    ed 15/15

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  • "As flores roxas de uma planta me encaram como uma curiosa hidra. Em seu compromisso com a beleza, por vezes eu tinha a sensação de contemplá-las de uma maneira quase sexual, licenciosamente expostas diante de mim, dispostas de modo que sua beleza fosse a mais cativante possível, como um nu."

    Patti Smith

  • R O B E R T M A P P L E T H O R P E “Orchid”, 1982...
    R O B E R T  M A P P L E T H O R P E
    “Orchid”, 1982

    fotografia em emulsão de prata

    gelatin silver print

    50,8 x 40,64 cm
    20 x 16 in
    ed 5/10

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  • Robert Mapplethorpe é amplamente reconhecido como um dos mais aclamados fotógrafos da segunda metade do século 20. Suas fotografias em...
    R O B E R T  M A P P L E T H O R P E
    “Flower”, 1982

    fotografia em emulsão de prata

    gelatin silver print

    51 x 41 cm
    20 x 16 in
    ed 10/10

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    Robert Mapplethorpe é amplamente reconhecido como um dos mais aclamados fotógrafos da segunda metade do século 20. Suas fotografias em p&b evidenciam o interesse do artista por nus masculinos e femininos, flores, retratos de celebridades e de figuras anônimas da cena S&M nova-iorquina. Trata-se de poderosas imagens marcadas pelo apuro técnico e pela rigidez formal, que apontam, em sua variedade de temas, para uma busca constante por uma simetria de inspiração clássica e escultórica. “Eu procuro pela perfeição da forma”, afirmava Mapplethorpe. O caráter transgressor de sua obra tornou-se chave de leitura essencial para a interpretação de debates culturais das décadas de 1980 e 1990, em torno de questões ligadas à identidade, gênero e sexualidade.

     

    Suas exposições individuais recentes incluem Robert Mapplethorpe: Le Form Del Classico, Fondazione Giorno Cini, Veneza, Itália (2025); Mapplethorpe – von Gloeden. Beauty and Desire, Museo Novecento, Florença, Itália (2025); Robert Mapplethorpe: mais que um rosto, Carpintaria, Rio de Janeiro, Brasil (2023); Implicit Tensions – Mapplethorpe Now, Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York (2019); Robert Mapplethorpe: Pictures, Museu de Serralves, Porto, Portugal (2018) e The Perfect Medium, J. Paul Getty Museum, Los Angeles, Estados Unidos (2017). Participou também das mostras coletivas Nunca só essa mente, nunca só esse mundo, Carpintaria, Rio de Janeiro, Brasil (2023); American Art 1961-2001, The Walker Art Center Collections, Palazzo Strossi, Florença, Itália (2021); O Canto do Bode, Casa da Cultura da Comporta, Comporta, Portugal (2021); Art After Stonewall: 1969-1989, Columbus Museum of Art, Columbus, Estados Unidos (2020). A obra de Mapplethorpe integra importantes coleções públicas, tais como The Art Institute of Chicago, Chicago, Estados Unidos; Australian National Gallery, Canberra, Australia; Bank of America Collection, San Francisco, Estados Unidos; Boston Museum of Fine Arts, Boston, Estados Unidos; Centre Georges Pompidou, Paris, França; Dallas Museum of Art, Dallas, Estados Unidos; Frankfurter Kunstverein, Frankfurt, Alemanha; Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York, Estados Unidos; Hara Museum of Contemporary Art, Tóquio, Japão; Metropolitan Museum of Art, Nova York, Estados Unidos; MoMA – The Museum of Modern Art, Nova York, Estados Unidos; National Portrait Gallery, Londres, Reino Unido; SFMoMA – San Francisco Museum of Modern Art, San Francisco, Estados Unidos; Stedelijk Museum, Amsterdam, Holanda; Victoria & Albert Museum, Londres, Reino Unido e Whitney Museum, Nova York, Estados Unidos.