• 22.08 - 17.10.26

    FABIANA DE BARROS

    Imagens do INterior

     

  • Nos dias de hoje, a beleza interior existe?
    Será possível fazer aflorar a beleza interior
    neste mundo materialista e cínico em que vivemos?

     

  • F A B I A N A D E B A R R O S “Paisagem 01” da série “Paisagem”,...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Paisagem 01” da série “Paisagem”, 2020

    resina mineral, pigmento e tinta Posca

    mineral resin, pigments and Posca paint

    44,5 x 32,5 x 3,5 cm
    17.50 x 12.80 x 1.37 in

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  • A Beleza Interior

    No fim do século XIX, o romance de Oscar Wilde, "O retrato de Dorian Gray", é publicado na Inglaterra. O livro conta a história de um jovem de rara beleza, representante da boa sociedade vitoriana. Dorian posa para um pintor, com quem faz um pacto: os sinais do tempo nunca devastariam seu rosto magnífico. Em vez disso, se estampariam na pintura que ele guardará em seu sótão, protegida dos olhares alheios. Além disso, quaisquer que sejam seus atos, Dorian conservará sua aparência de beleza fascinante, enquanto a pintura de seu rosto envelhecerá e se tornará hedionda. A pintura de Dorian carrega os sinais de depravação escondidos no interior do personagem. Definitivamente, por trás do aspecto respeitável e bem educado deste homem, esconde-se um interior assustador.

     

    Dorian Gray é um protagonista masculino. No entanto, naquela época, essa imagem pura, infantil e sem defesa, fruto de uma herança romântica, prevalece para o elemento feminino. A referência à beleza interior era com frequência feita para se falar de uma mulher; ao homem, atribuía-se a nobreza da alma ou as virtudes da honestidade, da retidão, da coragem, da virilidade e do comando.

     

    O pensamento de Jung, para quem "o prazer da beleza é um prazer do eu objetivado", nos leva a crer que a beleza é a exteriorização de um estado interior, percebido como objetivo e exterior. Assim, a beleza seria somente um estado psíquico. O aspecto físico, exterior, teria um papel relativo, apesar de derivar de um eu ideal, reconciliado, no qual o sujeito se sente em sintonia consigo mesmo e, por extensão, com o mundo. 

     

    Seria essa definição ainda válida nos dias de hoje, época na qual a estética vale mais do que a moral e na qual o aspecto externo conta mais do que a virtude? Hoje, "o efeito Dorian Gray" pode ser alcançado tanto por homens quanto por mulheres com a ajuda de cosméticos, infusões, pílulas ou intervenções cirúrgicas que apagam os desgastes físicos causados pelo envelhecimento e uma vida desregrada. Isto posto, esta uniformização da aparência levaria a uma estética ordinária? Como, desde então, a beleza interior pode aparecer exteriormente se o que resta é somente uma mediocridade generalizada?

     

    No entanto, existe hoje uma margem que permite a revelação da personalidade interior de uma pessoa. Por exemplo, ao invés de falar de beleza interior para descrever uma mulher que não é especialmente sedutora, diremos mais facilmente: ela tem belos olhos. Consideram-se assim, os olhos como o espelho da alma. Mas, ainda mais que os olhos, é o olhar, oblíquo ou fugidio, direto ou franco, que pode trair a interioridade. Há ainda o vestuário, que pode ser barato ou de grife, elegante ou vulgar (apesar de existir vulgaridade na elegância e elegância na vulgaridade). Finalmente, a atitude (timidez, arrogância, franqueza, hipocrisia, etc.) pode ser um meio de manifestar exteriormente um caráter interior.

     

    Alguns afirmam que a interioridade se revela por um tipo de halo que envolve a pessoa e somente é visível por alguns indivíduos, particularmente sensíveis. Esse halo, chamado de aura, seria colorido pela personalidade daquele que envolve. A cor predominante da aura é o amarelo. Ela se torna vermelha em indivíduos particularmente maus, enquanto uma pureza de alma elevada será marcada por um amarelo brilhante e solar. Nas pinturas da época medieval, a circunferência branca que circunda a cabeça é chamada de auréola e é atribuída aos santos, aos anjos e às figuras da Trindade. As auréolas indicam o valor dos seres conforme uma escala do bem e do mal.

     

    Assim sendo, é preciso distinguir a boa alma e a bela alma. A primeira depende das obras que um ser realiza: se ele se conduz com retidão ou se ama o próximo mais do que a si mesmo, atinge a santidade e obtém uma auréola. Dessa forma, a boa alma está ligada à ética e se constrói na luta quotidiana contra o mal. Contrariamente, a bela alma é um fato estético que não se adquire de nenhuma forma; é inata e onipresente. No entanto, devemos ser educados para atingir a plena expansão da virtude. Nos seres masculinos, ela se confunde com a alma nobre, própria de uma certa aristocracia do caráter.

     

    "Uma bela alma, escreve Schiller, não possui outro mérito além de sua existência". Ela pode estar presente nos pobres e nos ricos. Ora, uma opulência material favorece seu desenvolvimento. Os ricos possuem, com efeito, mais ocasiões de desenvolvê-la. Finalmente, é raro que as classes inferiores, preocupadas com sua condição, possuam e cultivem uma bela interioridade.

     

    Uma forma de beleza interior extrema, que pode ter efeitos nocivos, é aquela ligada ao carisma exercido pelas relações individuais ou sociais, que permite influenciar os outros. Quando um ser carismático ganha a confiança da massa, aparece um fenômeno típico do último século: o líder carismático é visto como um semideus, como o guia espiritual. No plano individual, o carisma provoca a fascinação. O fascínio nasce diante da extrema segurança do ser carismático, que conforta e atrai as pessoas frágeis que buscam apoio. O indivíduo dotado com esse talento fascinador possui e exerce seu poder de sedução em todas as áreas, principalmente no plano sexual.

     

    Para concluir, se existe, em nosso mundo materialista e cínico, alguém que possui uma forma de beleza interior, trata-se de um ser ingênuo, como o Idiota, de Dostoïevski – cujo personagem é obrigado por seu próprio caráter a dizer sempre a verdade. Mas, se esse ser hipotético existir, podemos considerá-lo incluído na prece de Sócrates: "Eu peço, meu Deus, dai-me a beleza interior, e fazei com que meu exterior corresponda a meu interior."


    Fulvio Salvadori, 2008

     


    Fulvio Salvadori (1937–2021) foi filósofo e escritor italiano. Autor de diversos ensaios sobre estética e arte contemporânea, publicou, entre outros, Visioni del femminile nella storia e nell’arte (2005) e Scritti sospesi. Visioni estatiche (2020).

     

  • F A B I A N A D E B A R R O S “Pompeï C-2” from the series...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Pompeï C-2” from the series “Pompeï”, 2020

    resina mineral, pigmento e tinta Posca

    mineral resin, pigments and Posca paint

    44,5 x 32,5 x 3,5 cm
    17.50 x 12.80 x 1.37 in

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  • F A B I A N A D E B A R R O S “Sol” da série “Imagens do...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Sol” da série “Imagens do interior”, 2020

    colagem em papel com tinta Posca

    paper collage with Posca paint

    24 x 36 cm
    9.45 x 14.17 in

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  • F A B I A N A D E B A R R O S “Nuvem” da série “Imagens do...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Nuvem” da série “Imagens do interior”, 2020

    colagem em papel com tinta Posca

    paper collage with Posca paint

    24 x 36 cm
    9.45 x 14.17 in

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    • Fabiana de Barros “Dormindo”, 2026 resina mineral, pigmento, resina epóxi e tinta Posca mineral resin, pigment, epoxy resin, and Posca paint 29,3 x 29,5 x 2,5 cm 11.53 x 11.61 x 1 in
      Fabiana de Barros
      “Dormindo”, 2026
      resina mineral, pigmento, resina epóxi e tinta Posca
      mineral resin, pigment, epoxy resin, and Posca paint
      29,3 x 29,5 x 2,5 cm
      11.53 x 11.61 x 1 in
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    • Fabiana de Barros “Fantasmão”, 2026 resina mineral, pigmento, resina epóxi e tinta Posca mineral resin, pigment, epoxy resin, and Posca paint 40 x 40 x 2,5 cm 15.75 x 15.75 x 1 in
      Fabiana de Barros
      “Fantasmão”, 2026
      resina mineral, pigmento, resina epóxi e tinta Posca
      mineral resin, pigment, epoxy resin, and Posca paint
      40 x 40 x 2,5 cm
      15.75 x 15.75 x 1 in
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  • F A B I A N A D E B A R R O S “Próximo fantasma - I” da...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Próximo fantasma - I” da série “Próximos fantasmas”, 2026

    relevo sobre resina mineral e tinta acrílica 

    relief on mineral resin and acrylic paint

    29,5 x 29,5 x 1 cm
    11.61 x 11.61 x 0.40 in

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  • F A B I A N A D E B A R R O S “Próximo fantasma - II” da...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Próximo fantasma - II” da série “Próximos fantasmas”, 2026

    relevo sobre resina mineral e tinta acrílica 

    relief on mineral resin and acrylic paint

    29,5 x 29,5 x 0,8 cm
    11.61 x 11.61 x 0.30 in

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  • F A B I A N A D E B A R R O S “Próximo fantasma - V” da...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S
    “Próximo fantasma - V” da série “Próximos fantasmas”, 2026

    gravura sobre resina mineral, tinta à base de caseína e tinta acrílica

    engraving on mineral resin, casein-based paint and acrylic paint

    29,5 x 29,5 x 0,7 cm
    11.61 x 11.61 x 0.27 in

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  • F A B I A N A D E B A R R O S & M I C H...
    F A B I A N A  D E  B A R R O S  &  M I C H E L  F A V R E
    "Ao final do Concurso de beleza Interior para um piquenique antropofágico, uma senhora me sugeriu plantar uma flor dentro da cadeira. Perguntei se ela queria ficar com a cadeira. Ela respondeu que sim e plantou uma rosa.", 2018

    fotografia

    photograph

    60 x 40 cm
    23.62 x 15.74 in

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  • Piquenique antropofágico

    Em 2008, foi realizado, na cidade de Genebra, um happening intitulado Concurso de beleza interior para um piquenique antropofágico. Um anúncio publicado na imprensa local convidava o público a indicar uma pessoa cujo comportamento, caráter, qualidades e outras características pudessem ser reconhecidos como sinais de beleza interior. Entre as pessoas indicadas, dez foram selecionadas para participar.

     

    O concurso foi estruturado a partir de um sistema que reproduzia três momentos do ritual antropofágico: Prelúdio, Execução e Tratamento do cadáver.

     

    No Prelúdio, cada participante se sentava em uma cadeira que evocava um caldeirão em ebulição, cercada por troncos nos quais o público também podia se acomodar. Em seguida, apresentava-se da maneira que desejasse: recitando poemas, mostrando pinturas, cantando ou utilizando qualquer outra forma de expressão. A intenção era permitir que sua beleza interior se manifestasse.

     

    Na Execução, um júri fazia perguntas sobre a apresentação. No Tratamento do cadáver, participantes e integrantes do júri discutiam a beleza interior da pessoa apresentada. Assim, seguindo a lógica simbólica do ritual antropofágico, cada participante oferecia aquilo que possuía de mais valioso para ser “digerido” pelas demais pessoas.

     

    Ao final da cerimônia, um júri composto por cinco personalidades — uma política feminista reconhecida em Genebra; um intelectual considerado, naquele momento, o homem mais tatuado do mundo; um cineasta convidado por encarnar um certo arquétipo masculino; um chefe de pessoal dos hospitais de Genebra; e uma curadora — atribuiu um prêmio à pessoa que se revelou de maior beleza interior.

     

    Entre o desejo antropofágico de assimilar as virtudes do outro e a tradição calvinista, surgiu um ponto de convergência. No encontro entre indivíduo e grupo, foram evocadas as relações entre si e o outro, no aqui e agora, fazendo emergir uma ética de partilha e de aprimoramento mútuo.

     

    A beleza interior se revelou como uma virtude primordial para o estabelecimento de uma relação natural e sã entre seres humanos. Formas de poder fomentadas pelas sociedades atuais – aparência, riqueza, exclusão – se revelaram evidentemente desnecessárias.

  • Fabiana de Barros

    1957, São Paulo, Brasil. Vive e trabalha entre Genebra e São Paulo.

    A pesquisa de Fabiana de Barros concentra-se na arte pública e contextual, articulando questões relacionadas ao intercâmbio cultural e às relações sociais. Desde o final da década de 1980, a artista desenvolve intervenções urbanas, performances, instalações, videoinstalações e projetos de web art que convidam o público a atuar como agente ativo na construção da obra. Entre seus trabalhos mais emblemáticos, se destaca o Fiteiro Cultural, iniciado em 1998 e desenvolvido em diferentes países, onde assume configurações diversas ao promover encontros, trocas e experiências coletivas.

     

    Fabiana de Barros é artista plástica formada pela FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado (1983, São Paulo) e pós-graduada pela École Supérieure d’Art Visuel, em Genebra (1991, Suíça). Entre as principais exposições, destacam-se as realizadas na Pinacoteca de São Paulo (1984), 20a, 24a e 25a edições da Bienal de São Paulo (1989, 1998, 2000), 8a Bienal de La Habana (2003, Cuba), 1a Bienal das Canarias (2006, Las Palmas, Espanha), Fundación Telefônica (2005, Espanha), New Contemporary Art Centre (2005, Grécia), 7a Bienal do Mercosul (2009, Porto Alegre), 11th Swiss Sculpture Exhibition (2009, Suíça), Biwako Biennal (2010, Japão), entre outras. Em 2009, foi contemplada com o prêmio Projetáveis, na Bienal do Mercosul e, em 2010, premiada na Interactivos?’10: Ciência de barrio, MediaLab Prado, em Madri. Além disso, é autora do livro Aberto [Open]: fiteiro cultural (Edições Sesc, 2017) e co-organiza a coleção Arte, Trabalho e Ideal para as edições SESC-SP. Como artista, organiza desde os anos 1980 vários intercâmbios artísticos entre a Suíça e o Brasil. Foi assistente do artista Geraldo de Barros e desde 1989, é responsável pelo arquivo de Geraldo de Barros, com Michel Favre, organizando importantes exposições dedicadas ao artista, como a do Ludwig Museum, na Alemanha, nas unidades do Sesc Pompeia, Pinheiros e Belenzinho; no Musée de l’Elysée, na Suíça, na Fundação Kunst- und Kulturstiftung de Opelvillen em Rüsselsheim, Alemanha, no MAMCO – Musée d’Art Moderne et Contemporain de Genève, na Suíça, além da organização dos livros Sobras e Fotoformas (Cosac Naify, 2006) e Geraldo de Barros: Isso (Edições Sesc, 2013). Suas obras integram coleções importantes como Fundação Bienal de São Paulo (Brasil), MAC-USP (Brasil), MASP (Brasil), AWK Engineering (Suíça) e Union Bank of Switzerland (Suíça).