Em Rashômon, Akutagawa utiliza um cenário de decadência e ruína para refletir sobre os limites da ética e da sobrevivência, transformando o célebre portão que dá nome ao conto em símbolo de uma sociedade em desintegração. Em Dentro do bosque, por sua vez, o autor desloca a atenção para a instabilidade da verdade ao reconstruir um assassinato por meio de depoimentos inconciliáveis, nos quais cada versão revela tanto os fatos quanto os interesses e subjetividades dos narradores. As duas obras serviram de base para Rashômon (1950), de Akira Kurosawa, marco da história do cinema e referência incontornável para as reflexões sobre memória, percepção e multiplicidade de perspectivas. Nesse contexto, Inverno Dentro do Bosque surge da intenção de Fernando Mota de traduzir para o espaço expositivo a lógica narrativa que atravessa os contos de Akutagawa. Ao se perguntar como uma técnica literária baseada na coexistência de perspectivas poderia ser incorporada à experiência da mostra, o curador transforma a expografia em seu principal dispositivo conceitual. A arquitetura da antiga residência modernista passa a operar como um campo de possibilidades, no qual diferentes percursos conduzem a interpretações igualmente válidas. Sendo assim, foram criados dois caminhos expositivos espelhados, compostos por pares de obras semelhantes de cada artista. Entre repetições, desvios e pequenas dissonâncias, a exposição constrói uma experiência marcada pela incerteza e pelo estranhamento, evocando a atmosfera ambígua dos contos nipônicos.
Tendo os jardins de Roberto Burle Marx como ponto de convergência, a mostra apresenta a casa lamento I e II (2026), duas instalações site specific de Selva de Carvalho, posicionadas uma de frente para a outra. Presente também em Fauna, Flora e Primavera (2022), a artista ocupa um lugar singular na Tetralogia das Estações, tornando-se objeto de uma observação continuada que busca acompanhar os desdobramentos de sua pesquisa ao longo dos 12 anos de projeto. Essa parceria entre artista, curador e galeria revela uma aposta na construção de conhecimento a partir do tempo, da experimentação compartilhada e da evolução conceitual. Formada por grandes casulos de tecido suspensos no espaço, a instalação retoma e transforma elementos da obra apresentada na primeira mostra, quando formas evocavam uma lacraia. Ao sugerir estados de espera, transição e metamorfose, os trabalhos convertem o jardim em um território de transformação, mistério e incerteza, assim como no bosque de Akutagawa. A exposição reúne ainda um conjunto de trabalhos da artista sérvia Marina Abramović, cuja produção investiga estados de transição entre exterior e interior, ação e contemplação, presença física e experiência mental. Entre os destaques estão obras da série Transitory Objects for Human Use (2015), como Chair for Human Use II e Chair for Human Use III. Concebidos para serem ativados pelo público, esses trabalhos ultrapassam a condição de esculturas e operam como dispositivos de percepção, convidando o visitante a experienciar estados ampliados de atenção, presença e consciência.
Distribuídas pela galeria, a mostra apresenta uma seleção de fotografias de Caio Reisewitz e Thomaz Farkas. Embora de gerações distintas, ambos os artistas compartilham o interesse pela paisagem como construção visual e cultural. Em suas obras, o território deixa de ser mero cenário para tornar-se campo de projeções, reflexões, memórias e narrativas, evidenciando que todo ato de olhar implica uma escolha e, consequentemente, uma forma particular de construir o real. Ao todo, a mostra apresenta cerca de 60 obras de artistas convidados e representados pela Luciana Brito Galeria. Assim como os personagens de Akutagawa, os trabalhos reunidos em Inverno Dentro do Bosque convidam o público a percorrer diferentes caminhos e construir suas próprias interpretações. Mais do que propor respostas, a exposição habita o território fértil da dúvida e da imaginação, onde múltiplas narrativas coexistem e toda verdade sucumbe às possibilidades.
