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Inverno Dentro do Bosque
curadoria Fernando Mota
Afonso Tostes | Caio Reisewitz | Eder Santos
Fernando Zarif | Junia Penido | Liliana Porter
Marina Abramovic | Marina Woisky | Mika TakahashiPaula Garcia | Raphael Zarka | Regina Silveira
Selva de Carvalho | Sofia Borges | Thiago Honório
Thomaz Farkas | Tobias Putrih | Wagner Malta Tavares
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“Quando se tenta resolver uma questão insolúvel, não há tempo para escolher os meios.”
Ryûnosuke Akutagawa – Rashômon
“Depois tudo foi silêncio… Não, ainda se ouvia o choro de alguém. Livrando-me da corda, apurei o ouvido. Mas, não, era eu mesmo que estava a chorar…”
Ryûnosuke Akutagawa – Dentro do bosque
Em 1950, o diretor japonês Akira Kurosawa adaptou para o cinema dois contos de seu conterrâneo Ryûnosuke Akutagawa: “Rashômon” (1915) e “Dentro do bosque” (1922). O primeiro trata da decadência de uma sociedade e de seus costumes, questiona a ambivalência e o cinismo da natureza humana quando confrontada com dilemas morais e existenciais. O segundo comporta a impossibilidade do julgamento e da verdade absoluta dado um cenário com versões conflituosas de testemunhas sobre o mesmo fato. Enquanto a primeira história é retratada nas ruínas do antigo portão de entrada da cidade de Quioto, a segunda tem como palco um bosque nas redondezas do centro urbano. Em sua premiada versão audiovisual, Kurosawa utilizou o título, o cenário e parte da discussão moral de “Rashômon” para desenvolver a estrutura narrativa original de “Dentro do bosque” e contar a essência da história: as contradições de diferentes narradores a respeito de um acontecimento específico. Chocam-se as percepções, as interpretações individuais e as manipulações dos relatos de um crime. Esta forma de contar uma mesma história através de pontos de vista e descrições incompatíveis, na qual a subjetividade narrativa sobrepõe-se à objetividade factual de um determinado evento, ficou conhecida como “Efeito Rashômon”.
A mostra Inverno Dentro do Bosque nasce de um desejo de experimentação expográfica e narrativa a partir destes dois contos nipônicos. Kurosawa encontrou um método dentro da linguagem cinematográfica, mas como seria uma versão nas artes visuais? Como poderia ser adaptada e utilizada esta técnica literária dentro de uma exposição? Assim, partindo de uma exceção à regra dentro do meio artístico contemporâneo, aqui o conteúdo serve à forma, a estrutura prevalece sobre o conceito. O espaço, portanto, é fundamental para tal fim. A Luciana Brito Galeria traz em sua arquitetura um jogo de espelhos e rotas duplicadas que favorecem e amplificam o objetivo central da exposição: proporcionar caminhos distintos para o público interpretar a história como bem entender. Para reforçar essa característica vital da mostra definiram-se pares de trabalhos similares, de forma que em diversos momentos do percurso a sensação do visitante é de uma estranha e enganosa repetição. Do início ao fim e ao início novamente, cada trabalho está posicionado dentro da galeria com o intuito de contrapor outra obra e fortalecer uma das rotas e narrativas da mostra, nada é aleatório, toda a exposição se ergue a partir de uma expografia aliada à arquitetura da casa e de seus anexos. Ao longo dos trajetos encontramos constantemente o corpo humano ou partes dele, junto a sombras, objetos e outros seres que anunciam uma presença e um certo mistério: algo aconteceu, ou então, está para acontecer. A simbologia também vai na mesma direção nebulosa, evocando inclusive elementos das histórias originais: cadeiras solitárias em frente à lareira, casulos nos jardins, olhos nos observando nas passagens, barcos em direções opostas, portões abandonados e cadeados fechados, cavalos em movimento, moscas, máscaras, mulheres enigmáticas, silhuetas não identificadas, uma vegetação cerrada… são vestígios de cenas passadas, indícios de uma história incompleta e invernal. Testemunhamos alternativas de um mesmo roteiro que se modifica nos desvios, nos detalhes, nos desacordos entre as imagens e nas divergências ao revelar as evidências no espaço. Como nos comportamos no terreno da incerteza, na ausência da confirmação? O quanto podemos acreditar em nossas memórias, em vagas lembranças, ou em informes de terceiros? Qual parte da história realmente vimos, qual ouvimos, e qual sequer sabemos da existência? Duvidar dos outros é sempre o caminho mais fácil, contudo, quando o que nos resta é apenas uma face dos fatos, repleta de lapsos e contornos imprecisos, somos capazes de assumir a fragilidade da nossa própria verdade?
A escolha do tema é também proveniente da finalidade de abordar algo que, assim como a literatura, já venho trabalhando com frequência nas curadorias de exposições: a ambiguidade intrínseca no ser humano, além da incongruência que carregamos e dos paradoxos que enfrentamos - ou escolhemos esconder - em nossas vidas.
A respeito da exposição no contexto maior da Tetralogia das Estações, vale ressaltar certas características e decisões: Trazer a atmosfera sombria dos contos para a casa exigia que a mostra fosse realizada numa estação mais fria, menos agitada e propícia à reflexão. As escolhas dos trabalhos e seus posicionamentos no espaço também sugerem um clima de introspecção e observação, uma leitura mais lenta e atenta, uma montagem mais racional e menos intuitiva, em contraste com a estética expansiva, sensorial e convidativa da exposição anterior (Fauna, Flora e Primavera, 2022); sai a leveza e a composição livre e entra a disciplina e o esforço de uma apresentação calculada. Enquanto na Primavera as obras e a expografia induziam ao encontro do ser humano com a natureza, a um realinhamento dessa relação em um plano de descoberta e revisão, no Inverno há um desalinhamento interno, a busca por um reencontro desse ser consigo mesmo e a chance de uma nova visão partindo de dentro. Na Primavera contemplamos as várias formas de vida. No Inverno refletimos sobre as nossas variadas mortes.
Fernando Mota
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A F O N S O T O S T E S“Máscara 7”, 2022madeira e policromia
wood and polychrome
60 x 18 x 15 cm
23.62 x 7.09 x 5.9 in -
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C A I O R E I S E W I T Z“Cocos Nucífera”, 2016c-print em metacrilato
c-print mounted on Diasec
230 x 157 cm
90.55 x 61.81 in -
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E D E R S A N T O S“Cinema”, 2009vídeo mono canal (cor/som) - HDCAM
single channel video (color/sound)
duração: 13’13’’
duration: 13’13’’ -
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F E R N A N D O Z A R I F“Operação plástica / Chirurgie esthétique (Portrait)”, 1997técnica mista sobre tela
mixed media on canvas
22 x 14 cm8.66 x 5.51 in -
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J U N I A P E N I D O“Procura-se”, 2026óleo sobre linho
oil on linen
46 x 31 cm / 44 x 34 cm18.11 x 12.20 in / 17.32 x 13.38 in -
L I L I A N A P O R T E R“Encounter with bird” , 2024porcelana e madeira sobre base de madeira
porcelain and wood on wood plynth
20,32 x 12,7 x 8,89 cm
8 x 5 x 3.5 in -
L I L I A N A P O R T E R“Encounter with silver bird“, 2024plástico e metal sobre base de madeira
plastic and metal on wood plynth
7,62 x 3,17 x 20,32 cm
3 x 1.25 x 8 in -
M A R I N A A B R A M O V I C“Chair for Human Use (III)”, 2015madeira e pedras de cristal quartzo
wood and crystal quartz stones
125 x 47 x 70 cm
49.22 x 18.50 x 27.56 ined 2/4 -
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M A R I N A W O I S K Y“Dois cavalos”, 2026impressão sobre tecido, argamassa e resina
printing on fabric, mortar and resin
51 x 70 x 2,5 cm
20.07 x 27.50 x 1 in -
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M I K A T A K A H A S H I“Rizoma”, 2025óleo sobre tela
oil on canvas
27 x 35 cm10.60 x 13.80 in -
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P A U L A G A R C I A
“Cabeça Ruída”, 2024metal, ímãs de neodímio e pregos banhados a prata
metal, neodymium magnets and silver-plated nails
50 x 35 x 51 cm19.68 x 13.78 x 20.08 ined 1/3 + 2 P.A. -
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R A P H A E L Z A R K A“La Deduction de Wenzel”, 2013compensado e tinta de offset
plywood, offset ink
170 x 130 x 3 cm
66.93 x x 51.18 x 1.18 ined 1/3 -
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R E G I N A S I L V E I R A“Sombras” da série “Dilatáveis”, 1981/2022impressão em papel Hahnemüle Canvas Cezanne 430 gm2 com ploter Canson IPF Pro 4000 com tintas Canon Lucia Pro
printing on Hahnemüle Canvas Cezanne 430 gm2 paper with Canon IPF Pro 4000 plotter with Canon Lucia Pro inks
100 x 245 cm
39.37 x 96.46 in -
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S E L V A D E C A R V A L H O“As muitas faces de Crisálida”, 2026bordado, grafite e carvão sobre algodão cru com estrutura de madeira e tinta a base de terra na parte de trás
embroidery, graphite and coal on raw cotton structured on wood
170 x 50 cm66.92 x 19.68 in -
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S O F I A B O R G E S“Effacement of sculptures”, 2021papel de arroz e monotipia sobre seda
rice paper and monotype on silk
43 x 30,5 cm17 x 12 in -
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T H I A G O H O N Ó R I O“Estudo para visto” , 2023-2025lápis de cor aquarelável e grafite sobre papel milimetrado; folha de jacarandá
watercolor pencil and graphite on graph paper; rosewood leaf
37,5 x 27,5 x 4 cm
14.76 x 10.82 x 1.57 in -
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T H O M A Z F A R K A S“Melanie I”, 1948/2024impressão jato de tinta com pigmento mineral sobre papel de algodão 310g
inkjet print with mineral pigment ink on cotton paper 310g
100 x 80 cm
39.37 x 31.5 ined 2/11 -
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T O B I A S P U T R I H“Compressions A”, 2016papelão, compensado, metal clips de plástico e elástico
cardboard, plywood, metal, plastic clips and elastic rope
156 x 107 x 6 cm61.41 x 42.12 x 3.34 in -
W A G N E R M A L T A T A V A R E S“Dafne”, 2020cobre e pintura automotiva
copper and automotive paint
74 x 28 x 17 cm29.13 x 11 x 6.70 in -
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