Inverno Dentro do Bosque
Futuras exhibition
Apresentação
A Luciana Brito Galeria apresenta Inverno Dentro do Bosque, mostra coletiva com curadoria de Fernando Mota. Dando continuidade à Tetralogia das Estações — conjunto de quatro exposições realizadas a cada quatro anos, entre 2022 e 2034 — a mostra sucede Fauna, Flora e Primavera (2022) e toma como ponto de partida os contos japoneses Rashômon (1915) e Dentro do bosque (1922), de Ryûnosuke Akutagawa. Entre sombras, ambiguidades e múltiplas versões da verdade, as narrativas do escritor servem como eixo conceitual para esta reflexão sobre o inverno.
Artistas: Afonso Tostes, Caio Reisewitz, Eder Santos, Fernando Zarif, Liliana Porter, Junia Penido, Marina Abramovic, Marina Woisky, Mika Takahashi, Paula Garcia, Regina Silveira, Selva de Carvalho, Raphael Zarka, Sofia Borges, Thiago Honório, Thomaz Farkas, Tobias Putrih, Wagner Malta Tavares.
Inverno Dentro do Bosque
Curadoria de Fernando Mota
Abertura - 4 de julho, a partir das 11h
Em exposição até 8 de agosto
Em Rashômon, Akutagawa utiliza um cenário de decadência e ruína para refletir sobre os limites da ética e da sobrevivência, transformando o célebre portão que dá nome ao conto em símbolo de uma sociedade em desintegração. Em Dentro do bosque, por sua vez, o autor desloca a atenção para a instabilidade da verdade ao reconstruir um assassinato por meio de depoimentos inconciliáveis, nos quais cada versão revela tanto os fatos quanto os interesses e subjetividades dos narradores. As duas obras serviram de base para Rashômon (1950), de Akira Kurosawa, marco da história do cinema e referência incontornável para as reflexões sobre memória, percepção e multiplicidade de perspectivas.
Nesse contexto, Inverno Dentro do Bosque surge da intenção de Fernando Mota de traduzir para o espaço expositivo a lógica narrativa que atravessa os contos de Akutagawa. Ao se perguntar como uma técnica literária baseada na coexistência de perspectivas poderia ser incorporada à experiência da mostra, o curador transforma a expografia em seu principal dispositivo conceitual. A arquitetura da antiga residência modernista passa a operar como um campo de possibilidades, no qual diferentes percursos conduzem a interpretações igualmente válidas. Sendo assim, foram criados dois caminhos expositivos espelhados, compostos por pares de obras semelhantes de cada artista. Entre repetições, desvios e pequenas dissonâncias, a exposição constrói uma experiência marcada pela incerteza e pelo estranhamento, evocando a atmosfera ambígua dos contos nipônicos.
Tendo os jardins de Roberto Burle Marx como ponto de convergência, a mostra apresenta a casa lamento I e II (2026), duas instalações site specific de Selva de Carvalho, posicionadas uma de frente para a outra. Presente também em Fauna, Flora e Primavera (2022), a artista ocupa um lugar singular na Tetralogia das Estações, tornando-se objeto de uma observação continuada que busca acompanhar os desdobramentos de sua pesquisa ao longo dos 16 anos de projeto. Essa parceria entre artista, curador e galeria revela uma aposta na construção de conhecimento a partir do tempo, da experimentação compartilhada e da evolução conceitual. Formada por grandes casulos de tecido suspensos no espaço, a instalação retoma e transforma elementos da obra apresentada na primeira mostra, quando formas evocavam uma lacraia. Ao sugerir estados de espera, transição e metamorfose, os trabalhos convertem o jardim em um território de transformação, mistério e incerteza, assim como no bosque de Akutagawa.
A exposição reúne ainda um conjunto de trabalhos da artista sérvia Marina Abramović, cuja produção investiga estados de transição entre exterior e interior, ação e contemplação, presença física e experiência mental. Entre os destaques estão obras da série Transitory Objects for Human Use (2015), como Chair for Human Use II e Chair for Human Use III. Concebidos para serem ativados pelo público, esses trabalhos ultrapassam a condição de esculturas e operam como dispositivos de percepção, convidando o visitante a experienciar estados ampliados de atenção, presença e consciência.
Distribuídas pela galeria, a mostra apresenta uma seleção de fotografias de Caio Reisewitz e Thomaz Farkas. Embora de gerações distintas, ambos os artistas compartilham o interesse pela paisagem como construção visual e cultural. Em suas obras, o território deixa de ser mero cenário para tornar-se campo de projeções, reflexões, memórias e narrativas, evidenciando que todo ato de olhar implica uma escolha e, consequentemente, uma forma particular de construir o real.
Ao todo, a mostra apresenta cerca de 60 obras de artistas convidados e representados pela Luciana Brito Galeria. Assim como os personagens de Akutagawa, os trabalhos reunidos em Inverno Dentro do Bosque convidam o público a percorrer diferentes caminhos e construir suas próprias interpretações. Mais do que propor respostas, a exposição habita o território fértil da dúvida e da imaginação, onde múltiplas narrativas coexistem e toda verdade sucumbe às possibilidades.
Obras
